Páginas

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A MISSÃO SANGRENTA EM UGANDA CONTRA A POPULAÇÃO LGBT








"O mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula. O mundo tal como ele é: a globalização como perversidade. E o mundo tal como ele pode ser: o mundo como possibilidade… uma OUTRA globalização. Porque o consumismo é o maior dos fundamentalismos
Milton Santos - Uma outra Globalização         

               Desde criança, criado na Assembleia de Deus, fui educado sobre a importância das missões cristãs no mundo. Sendo fiéis ao texto de Marcos, capítulo 16 versículo 15, no qual Jesus, antes de sua ascensão disse: Ide por todo mundo, pregai o evangelho para toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, esses homens e mulheres abdicam de suas vidas para a propagação da fé cristã. Conhecer um missionário que havia ido ao Continente Africano era o suprassumo da fé. Em cultos de missões, ele era o pop star de Jesus, para quem todas as atenções se voltavam. À medida que passei a ler mais, a estudar e a me envolver na luta pelos Direitos Humanos, esse encantamento pela palavra missões esvaiu-se a medida em que fui me dando conta o quanto ela denota violência.

               Historicamente, a Igreja Católica tem feito acreditar que, em nome de uma pretensa salvação, o "evangelho" deve ser anunciado. Com isso, seu poderio aumentou sem precedentes históricos e serviu para dizimar culturas, escravizar populações e beneficiar-se materialmente e financeiramente da fé alheia. A palavra salvação e evangelho são metáforas abstratas e, portanto, preenchidas de sentidos políticos que justifiquem essa universalidade imposta da fé cristã. O texto acima citado não especifica do que as pessoas devem ser salvas, muito menos que "boa nova" é essa a ser anunciada. Esse esvaziamento de sentido permite que a Igreja forje a ideia de um paraíso pós morte - mundo abstrato e mal definido onde os fiéis gozarão a eternidade - e um inferno bem mais detalhado onde aqueles que não aceitarem a "boa nova" serão condenados. Esses lugares discursivamente definidos tornaram-se secularmente a angústia e o medo da cultura ocidental. Durante muitos séculos, a ICAR tornou-se detentora desse lugar, sobretudo ao respaldar-se na mensagem de Cristo a Pedro, dizendo-lhe que ele era pedra e sobre essa pedra edificaria a igreja.
               Em nome dessa missão, culturas não europeias foram dizimadas, guerras foram justificadas e bilhões de vidas destruídas ao longo da história. Após a Reforma Religiosa, deu-se início à disputa pelos céus. Embora o protestantismo histórico emancipou-se contra a hegemonia católica, a Reforma não alterou significativamente a lógica dessas metáforas: mantiveram a ideia de que a boa nova é salvar alguém de algo definido como inferno. Em plena era capitalista, com o advento do neopentecostalismo, as igrejas passaram a funcionar como grandes empresas fazendo da fé um valor de troca e mercadoria. Neste contexto, as instituições cristãs que se constroem a partir dessa ideia de missões não tem outra visão, senão esta: alargar seu capital financeiro, enriquecer seus líderes religiosos, favorecer empresas capitalistas com as quais estabelecem relações de negócio e fazer deste planeta seu paraíso terrestre enquanto seus fiéis são catequizados a crerem piamente no paraíso eterno. Para tanto, operam algumas bandeiras no campo da moral que motivem tais "missões", sobretudo em países subdesenvolvidos: atribuem a religião não cristã como demoníaca, justificam a miséria e a fome como resultado da falta de Deus e condenam práticas culturais, identificando-as como imorais e satânicas.
               É este o modus operandi que vem há décadas acontecendo em Uganda. A Região de Uganda, habitada por povos bantus e nilotas, era composta por vários reinos, sendo o mais famoso deles o reino de Buganda. A partir do século XIX, com a invasão europeia no Continente Africano, Uganda tornou-se colônia da coroa britânica. Somente em 1962 que este país tornou-se independente, mas isso não significou a autonomia do povo ugandense, pelo contrário, circunscrita na lógica ocidental capitalista, essa liberdade tornou-se sinônimo de exploração, sendo muitas vezes governada por ditadores e apoiada por instituições religiosas. A globalização capitalista sucumbiu qualquer possibilidade de autonomia e manutenção das culturas tradicionais africanas em todo continente. É nesse contexto que católicos e evangélicos desenvolvem a pretensa missão evangelizadora como um dos pilares de sustentação do Estado violento da República de Uganda. Atualmente, oitenta por cento da população ugandense é evangélica e missionários de vários países do mundo, sobretudo do Brasil e dos EUA, são enviados para lá com intuito de anunciar uma "boa nova" que não é nova e muito menos boa. O que esses missionários fazem em nome de uma pretensa verdade e de um falso deus é o charlatanismo muito bem representado pela personagem Panurge de Molière em Pantagruel[1]. Encantados com uma pretensa verdade e presos às suas verborragias, esses missionários disseminam o ódio e destroem culturas.
               Atualmente, o alvo do ódio desses panurgistas na Uganda tem sido a população LGBT. Em sua constituição, a República de Uganda condena as relações homossexuais, cuja pena máxima, caso seja considerado como algo "contrário à natureza", é a prisão perpétua. Para piorar tramita no Parlamento um projeto de lei do deputado David Bahato que visa condenar à pena de morte pessoas que praticarem relações sexuais com o mesmo sexo, proíbe o país de participar de qualquer tratado internacional contrário ao espírito dessa lei e ameaça com prisão de três anos quem não denunciar homossexuais. Conforme pode ser visto no documentário Evangelho da Intolerância (http://video.br.msn.com/watch/video/evangelho-da-intolerancia/anl6inh4), essa violência tem sido patrocinada por missionários protestantes e fiéis que contribuem financeiramente para elas.
               Dois pontos tornam-se importantes: o primeiro ponto é entendermos a necessidade de internacionalizarmos urgentemente a luta contra a homofobia. Partidos, grupos e agremiações de esquerda devem incorporar em seus debates, campanhas e discussões sobre conjuntura internacional a luta contra a homofobia. Enquanto povos se levantam no mundo árabe contra ditadores e a crise econômica de 2008 tem levado povos às ruas em países europeus e nos EUA - luta legítima e tema importante a ser tratado -, LGBT na Uganda e em outros países africanos são torturados e assassinados em silêncio, sozinhos e sem nenhum amparo.
                  O segundo refere-se ao modo de se tratar as questões de gênero e sexualidade. Definitivamente, elas não são uma pauta específica e muito menos devem se restringir ao campo dos Direitos Humanos. O machismo e a homofobia é estruturante em nossa sociedade. Entendê-la como uma luta por direitos nessa sociedade capitalista é iludir-se com o discurso das liberdades individuais. Em países que atualmente permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que têm leis que respeitem a identidade de gênero de Travestis e Transexuais e criminalizam a violência contra a população LGBT, tais direitos tornam-se equiparados aos direitos de heterossexuais, isto é, o direito ao consumo. Em uma cultura marcada pela desigualdade e concentração de renda, não há liberdade plena. O vídeo mostra o movimento que tais religiosos tem feito ao saírem de seus países de origem e migrarem para países subdesenvolvidos como Uganda, impondo suas intolerâncias e as transformando em leis. Tais países servirão de modelo para que quando, em uma crise econômica, ascenderem grupos intolerantes, tais modelos serão novamente incorporados.
               Não há segurança plena enquanto houver países que transformam em leis a política do ódio. Enquanto houver um país que condena a homossexualidade qualquer lei ou qualquer conquista pelos direitos da população LGBT serão como castelos construídos por sobre a areia e, portanto, estarão fadadas ao fracasso. A primeira maré conservadora derrubará tais conquistas. Por isso, torna-se urgente como palavra de ordem a internacionalização da luta contra homofobia. Enquanto no Brasil, nos países europeus ou nos Estados Unidos, nós, homossexuais, casamos, jovens na Uganda são submetidos à tortura sem precedentes na história da humanidade.
               Por fim, é importante entendermos que essa globalização que vivemos se sustenta sobre a tirania da informação e do dinheiro. São relações puramente competitivas e desumanizadas. É preciso, como afirmou o geógrafo professor Milton Santos lutar por uma outra globalização. Para o geógrafo, esta globalização que vivemos é fábula, cuja perversidade dos que controlam as grandes instituições passa por reservar os melhores pedaços do Território Global para si, deixando o resto para os outros - o que começa a acontecer também entre a população LGBT mundial. É preciso transformar essas novas tecnologias em trampolim para uma nova ordem social pautada na humanização universal e na garantia dos direitos plenos de cada indivíduo que abram novos caminhos para uma civilização planetária. Para tanto, sofrer e lutar com nossas irmãs e irmãos LGBT e todos outros segmentos sociais vítimas da violência em Uganda, Rússia e qualquer lugar no mundo deve ser a nossa palavra de ordem.



[1] O termo   panurgos (Panourgoz) significa em grego astuto e identifica aquele que age maldosamente. Em Pantagruel de Molière, a personagem é um vigarista, mentiroso, falso médico que engana as outras personagens em busca de beneficiar-se financeiramente, tornando-se arquétipo daquele que diz algo com intenções de beneficiar-se a si mesmo. Considerando que o termo "evangélico" significa em grego o que anuncia boas novas - nada condizente com esse dizer-fazer da religião cristã - proponho um neologismo a partir desse arquétipo de Molière. Desse modo, identifico como panurgistas ou a prática da panurgem esses que dizem preocupar-se com a salvação, mas na realidade estão voltados em fazer da fé valor de troca e mercadoria e, para tanto, utilizam-se do discurso de ódio.

Um comentário: