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domingo, 15 de janeiro de 2012

POIESIS, AESTHESIS E KATARSIS: A TRINDADE NA ALMA HUMANA E NA TOMADA DE CONSCIÊNCIA.

            Desde a Grécia antiga, a linguagem como produtora de sentido foi objeto de atenção de filósofos, artistas e médicos. Como produtora de sentido a linguagem é entendida como poiesis, cujo ato de criação, identificado como aesthesis produz efeitos de sentido no espírito humano, provocando a katharsis. De origem médica, esse termo significa o ato de purgação e purificação. Com Aristóteles, esse conceito, em sua Poética, terá o sentido de libertação produzida pela tragédia ou pela comédia. Duas coisas importantes a se observar aqui: poiésis, aesthesis e katarsis não são entendidas de modo separado enquanto conceito de procedimento artístico desde os gregos até os teóricos da arte e filósofos modernos, mas intrínsecas entre si. Se fazemos esta distinção, é unicamente para fins didáticos deste texto. Além disso, não pretendemos abordar o uso histórico desses termos para não tornar o texto cansativo.
            A arte tem por finalidade, a grosso modo, a purificação ou purgação do espírito humano por meio do prazer estético. Desse modo, o primeiro termo – poiesis – é, na arte, o ato criador, cujo fim é a libertação do espírito humano por meio da purificação. Para tanto, essa libertação deve ser feita por meio da aesthesis, provocando o prazer por meio do belo, o qual, experimentado pelos sentidos do corpo, possa ser identificado como tal. Conforme definição de Goethe, a estética – aesthesis – acontece quando uma idéia se transforma em imagem de modo que a idéia permanece sempre atuante e inatingível na imagem. Para Schelling, a estética é o infinito representado no finito. Essa beleza não necessariamente é de caráter positivo: pode também se operar, causando horror e repugnação no expectador. Por meio do verossímil, isto é, a arte do possível, conforme Aristóteles, o indivíduo é defrontado com uma cena imaginada a qual prenderá sua atenção, causando efeitos de ilusão. O prazer estético, em sentido amplo do termo, pode ser tanto negativo, quanto positivo, uma vez que sua única função é causar o efeito de ilusão no expectador. Se a arte for capaz disso, então pode ser definida como verossímil.
            Contudo, a poiesis, tendo a aesthesis como meio de procedimento criador, não se completa, caso não alcance seu objetivo final: provocar a purificação da alma humana, transformando o expectador na medida que altera – em sentido de aperfeiçoar – seu posicionamento diante de determinado tema. Essa alteração de procedimento ou transformação resulta necessariamente em ação humana em seu espaço coletivo. Se, para os idealistas alemães, a katarsis é o ato de sublimação por meio da estética, a mesma deve resultar em ação positiva para qualificar as ações e relações entre seres humanos. Sem a katarsis, a poiesis não se concretiza e perde seu sentido estético como tal.
            Trançando um paralelo de sentido com a idéia cristã da Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo[1] –, propomos uma aproximação análoga, entre a Trindade e o procedimento de arte definida pelos gregos. Deus-Pai é a poiesis como energia criadora e manifesta na aesthesis. Esta tem relação análoga ao Filho – Jesus Cristo – como, partindo da definição de Goethe e Schelling, a imagem na qual a idéia se transformou e como o infinito se fez finito. A aesthesis, personificada em Cristo simboliza a manifestação do belo em toda a trajetória relatada pelos evangelistas. Desse modo, não há distinção entre a poiesis e aesthesis na simbologia cristã, pois, conforme define o evangelista João, em seu primeiro capítulo “Antes de tudo, havia a Palavra, a Palavra presente em Deus, Deus presente na Palavra, A Palavra era Deus, Desde o princípio à disposição de Deus. Tudo foi criado por meio dele; nada – nada mesmo! – veio a existir sem ele”. (A Mensagem – Bíblia em Linguagem Contemporânea). Vemos, nesse trecho, a prova da indistinção, bem como a possibilidade de analogia entre Pai e Filho e poiesis e aesthesis. Rompendo com a leitura puramente religiosa e fetichista, Pai e Filho é o símbolo do ato criador entre os homens cujo resultado final deve ser a katarsis – ato libertador e purificador da alma humana. Este se estabelece como analogia da ação do Espírito Santo – a terceira parte da trindade – confirmada pelo mesmo evangelista no capítulo 14, versículos 25 a 27: “Digo estas coisas enquanto ainda estou com vocês. O amigo, o Espírito Santo que o Pai enviará, a meu pedido, irá esclarecer tudo para vocês”. Logo, o Espírito Santo completa o procedimento artístico, como terceira parte da Trindade, na medida em que é identificado pelo evangelista como o espírito libertador e de ação.
            A hermenêutica tradicional do texto bíblico (que não se diferencia muito da hermenêutica literária e filosófica) estabelece uma relação fetichista com o texto bíblico na medida em que se limita ao elemento estético – O Cristo. É nesse sentido dogmático e tradicional que o texto bíblico é considerado sagrado e, portanto, superior aos outros textos. Proponho aqui outra leitura: estabelecendo a analogia entre Trindade e o procedimento artístico conforme a definição grega, o texto bíblico deve ser compreendido de modo simbólico da produção artística que tem como objetivo último a libertação do espírito humano de seus preconceitos e ações negativas para um posicionamento purificador e atuante no seu meio social. Nesse sentido, a arte só se completa quando, por meio de seus procedimentos estéticos, consegue provocar purificação no espírito humano. É importante rejeitarmos duas compreensões de arte que empobrece a tríade artística: a primeira, identificada como estruturalismo limitado, vê na aesthesis seu fim, isto é, a defesa da arte pela arte e a proibição de qualquer leitura que vá para além do texto. A arte tem de ter um princípio ético e, para isso, deve ter como fim último a katarsis, do contrário é puro fetichismo. A segunda leitura, feita por um certo marxismo dogmático, exclui a aesthesis como intermédio entre poiesis e katarsis, isto é, a defesa de uma arte que ignore a importância do prazer na produção da katarsis. Ao ignorar a importância da forma na produção dos efeitos de sentido, essa tendência empobrece a produção artística e abre espaço para o domínio do estruturalismo limitado. A arte, como tal, deve se produzir – poiesis – por meio dos elementos estéticos – aesthesis – cujo fim deva ser ato libertador da alma humana – katarsis.
Por fim, minha proposta de leitura do cristianismo, a partir da análise feita, é similar ao efeito da arte, na medida em que a fé em Cristo deve ter como efeito a katarsis que torna o indivíduo melhor, não no sentido moral e vazio da palavra, mas material e ativo do que seja melhor: só seremos melhores quando a realidade injusta e violenta denunciada pela arte provocar em nós horror e levar-nos a uma conscientização e transformação para que nos tornemos agentes de mudança. Novamente, o evangelista citado confirma essa tese: “Quando o Espírito da verdade vier, denunciará o erro do mundo mau quanto ao pecado, à justiça e ao julgamento”. Correndo o risco de ser redundante, o Espírito da Verdade, como libertador – katarsis –, vem toda vez que somos defrontados por um tema, o qual nos arranca de nossa zona de conforto para enxergar além de nossas limitações e se completa quando a ampliação dessa visão, por meio de uma tomada de consciência, leva-nos a transformação de nós mesmos e do meio que estamos inseridos. Se isso ocorre, tanto a arte quanto a fé cumpre sua função em nossa alma.


[1] Assumo o limite da linguagem no texto que parte de uma visão patriarcal de nossa cultura cristã e ocidental. Contudo, aponto esforços de teólogos e teólogas feministas que propõe a duplicação do primeiro termo para Pai e Mãe, porém não conheço qualquer esforço para o termo Filho que, ao que me parece, continua a ser usado apenas no masculino, salvo engano.

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